quarta-feira, 18 de abril de 2012

Demóstenes negociou verba para beneficiar empreiteira


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DE SÃO PAULO

Hoje na FolhaEscutas e relatório do Ministério Público Federal apontam que o senador Demóstenes Torres (ex-DEM, atualmente sem partido) usou o cargo para negociar um projeto de R$ 8 milhões em favor da Delta Construções, informa reportagem de Fernando Mello e Leandro Colon, publicada na Folhadesta quarta-feira (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).
Marcello Casal - 12.abr.2012/Agência Brasil
Demóstenes Torres durante sessão no Conselho de Ética do Senado
Demóstenes Torres durante sessão no Conselho de Ética do Senado
Na gravação, ele condiciona o envio de verba para obra em Anápolis (GO) à escolha da Delta para tocar o projeto.
Ouça abaixo a conversa entre Demóstenes e o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso pela Operação Monte Carlo, da PF.

O senador diz a Cachoeira que o prefeito de Anápolis lhe pediu ajuda para fazer um parque. "Falei pra ele... que ele desse preferência para vocês", diz.
Um dia depois, Cachoeira relata a conversa para um diretor da Delta.
Para o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, há evidências de que Demóstenes atuava como "sócio oculto" da Delta, empresa que desde 2007 é a que mais recebe recursos do governo federal, principalmente por obras do Programa de Aceleração do Crescimento.
A defesa de Demóstenes nega pedido de favorecimento à empresa, que diz não ter relação com ele.
Leia a reportagem completa na Folha desta quarta-feira, que já está nas bancas.
Editoria de Arte/Folhapress

segunda-feira, 16 de abril de 2012

EXCLUSIVO: O PREÇO DOS POLÍTICOS NO JOGO DA DELTA


Por Mino Pedrosa

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O que parecia ser uma operação para a prisão de um contraventor do jogo clandestino (leia-se máquinas de caça níqueis) e vincular o crime a políticos de oposição, trouxe à luz um dos maiores lobistas e empresários atuante nos Governos Federal, Estaduais e municipais. Seu nome Carlos de Almeida Ramos: o Carlinhos Cachoeira. O Quidnovi traz com exclusividade o que será o maior escândalo dentro da Operação Monte Carlo.
O presidente do grupo Delta, o maior fornecedor do Governo Federal e detentor de quase todas as obras do PAC, Fernando Cavendish, é flagrado como sócio oculto de Carlos Cachoeira, através do presidente executivo do grupo Carlos Pacheco. Há algum tempo Carlinhos era o responsável pelas operações da Delta no Centro-Oeste. E na tentativa de flagrar o contraventor do jogo, a Operação Monte Carlo acabou desmontando um esquema muito maior, envolvendo políticos de todos os escalões dos Governos Federal e Estaduais.
Carlinhos Cachoeira começou sua parceria com a Delta no Governo de Goiás, através de Marconi Perillo (PSDB). O governador estava entregando para Carlinhos concessões em todo o Estado até vir à tona a Operação Monte Carlo. No Distrito Federal o esquema não era diferente. Pelas mãos de Agnelo Queiroz a Delta desbravou Brasília e entorno “cuidando” do lixo e fazendo manobras em todas as áreas, como por exemplo na Saúde, com o laboratório de genéricos; e na Segurança; com as máquinas de caça níqueis.
Mas a Delta tem mesmo um grande aliado é no Rio de Janeiro: o governador Sérgio Cabral. Há indícios que Cabral teria colocado nas mãos de Cavendish grande parte das obras sem licitações, além de ter feito a ponte com o presidente Lula tornando a Delta a maior fornecedora do Governo Federal.
Cavendish em reunião de diretoria da empresa fala abertamente como age para conseguir negócios nos governos comprando políticos e recrutando agentes ( leia-se arapongas) para se municiar de informações para facilitar a corrupção a preços mais baixos.
Cavendish e Cachoeira costumam usar a mesma linguagem com seus interlocutores. São simpáticos, solícitos, patrocinadores de orgias com mulheres e bebidas requintadas, viagens ao exterior para políticos e familiares. Com as informações da rede de arapongagem descobrem os “pontos fracos” de cada pessoa alvo, para serem utilizados na hora certa e no momento exato.
Até agora, a Operação Monte Carlo não apresentou o bicheiro Carlinhos Cachoeira. O que realmente aparece é o lobista e mega empresário corrompendo políticos, autoridades, polícia, funcionários públicos de alto e baixo escalão, jornalistas... e, em menor grau, surge o empresário do jogo com máquinas de caça-níqueis.
Recentemente acompanhamos projeto em votação na Câmara dos Deputados com um forte lobby em quase todos os partidos, principalmente os da base aliada do Governo, para aprovar a liberação dos caça-níqueis e bingos. À frente do lobby o vice-presidente da República Michel Temer, que fala até hoje com o presidente da Abrabin ( Associação Brasileira do s Bingos) Olavo Sales da Silveira. O vice-presidente tinha até pouco tempo o jornalista Gustavo Krigger, seu assessor direto, fazendo a interface entre a Câmara dos Deputados e Abrabin, através da agência de publicidade FSB. Hoje a FSB atende não só a Abrabin como também a Delta e a Michel Temer como vice-presidente.
O Quidnovi revela agora a conversa gravada numa reunião da Delta,  quando Fernando Cavendish fala com os sócios entre eles Carlos Pacheco, também sócio de Cachoeira,  “discutia o que pensa da política e dos políticos brasileiros de maneira geral: “Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas para ‘c…’. Pode ter certeza disso!”. E disse ainda que com alguns milhões, seria possível até comprar um senador para conseguir um bom contrato com o governo: “Estou sendo muito sincero com vocês: 6 milhões aqui, eu ia ser convidado (para fazer obras). Senador fulano de tal, se (me) convidar, eu boto o dinheiro na tua mão!”

Ministra Ideli terá de explicar compra de lanchas à Comissão de Ética


POLÍTICA


Comissão da Presidência também considera insuficientes argumento de Pimentel
Luiza Damé, O Globo
A Comissão de Ética Pública da Presidência da República acatou nesta segunda-feira a representação do PSDB contra a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, por causa da compra de 28 lanchas pelo Ministério da Pesca.
Além disso, na reunião desta segunda-feira da Comissão, a defesa do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, foi considerada insuficiente pelo relator do procedimento, conselheiro Fábio Coutinho. Ele pediu mais esclarecimentos a Pimentel sobre as consultorias que lhe renderam R$ 2 milhões antes de integrar o governo Dilma Rousseff, como mostrou reportagem do GLOBO em dezembro do ano passado.
- O ministro Fernando Pimentel apresentou no prazo os esclarecimentos pedidos, mas o relator pediu informações complementares - disse o presidente da comissão, Sepúlveda Pertence.
Com base em reportagens publicadas pelo GLOBO, o PSDB entrou com representação da Comissão de Ética Pública, no fim do ano passado, pedindo investigação das consultorias feitas por Pimentel no período entre a sua saída da prefeitura de Belo Horizonte e sua posse no ministério.
Entre 2009 e 2010, Pimentel faturou R$ 2 milhões, com consultorias. Metade desse dinheiro foi pago pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), por serviços de consultoria na elaboração de projetos na área tributária e palestras nas dez regionais da entidade. As palestras não ocorreram.
O conselheiro Américo Lacombe foi escolhido para analisar as explicações de Ideli sobre a compra das lanchas. A ministra mandou esclarecimentos à comissão espontaneamente.
Em março deste ano, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou irregularidade na compra de 28 lanchas pelo Ministério da Pesca. A empresa Intech Boating, fabricante das lanchas, contribuiu com recursos para a campanha do PT, em Santa Catarina, nas eleições de 2010, quando Ideli concorreu ao governo do estado. Ideli foi ministra da Pesca nos primeiros meses do governo Dilma.
- Com relação à ministra Ideli, ainda está em fase preliminar. Ela apresentou esclarecimentos voluntariamente, e o relator deverá apresentar seu voto para ver se abrimos procedimento ético - disse Sepúlveda.

sábado, 14 de abril de 2012

MENSALÃO É "INCOMUM"E EXIGE JULGAMENTO PECULIAR, DIZ AYRES BRITTO


Caso será principal missão do ministro, que assume o STF nesta quinta.

Escândalo do mensalão, de 2005, foi o maior do governo Lula.

Débora SantosDo G1, em Brasília
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Supremo Tribunal Federal (STF) se prepara para dar posse na próxima quinta-feira (19) ao novo presidente da Corte, Carlos Ayres Britto, 69 anos. Logo no início do mandato, o jurista sergipano terá a missão de organizar o julgamento de um dos principais processos da história do tribunal, o chamado mensalão.
A ação penal, que apura a responsabilidade de 38 réus no suposto esquema de compra de apoio político durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, espera somente a liberação do ministro revisor, Ricardo Lewandowski, para entrar na pauta de julgamentos.
O ministro Ayres Britto chega ao plenário para sessão do STF no dia 15 de março (Foto: Nelson Jr. / STF)O ministro Ayres Britto chega ao plenário para sessão do STF no dia 15 de março (Foto: Nelson Jr. / STF)
Nos bastidores, os ministros já discutem mudanças na rotina do tribunal para julgar o caso. O risco de prescrição, o número de réus, que terão uma hora cada para se defender, as 600 testemunhas ouvidas e a complexidade dos fatos narrados nos autos vão exigir uma força-tarefa para que o julgamento ocorra antes do período eleitoral.
Para o presidente eleito do STF, um caso “incomum” precisa de uma “tramitação peculiar”, mas Ayres Britto afirma que o tratamento especial não pode ser entendido como parcialidade.
“É um processo incomum por essas características e, como há risco de prescrição pelo tempo transcorrido, exige uma tramitação peculiar, sessões de julgamento formatadas num modo peculiar. Sem que isso signifique absolutamente perda de isenção da nossa parte”, disse.
Entre as alternativas em debate, estão realizar sessões todos os dias da semana e não apenas às quartas e quintas-feiras, como de costume, e estender o julgamento durante o recesso de julho.
O novo presidente do STF pratica meditação, escreve e publica livros de poesia e recomenda aos colegas juízes mais cinema, teatro e literatura. Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao G1.
G1 – O mensalão vem sendo chamado de o julgamento do século no Judiciário brasileiro. Na opinião do senhor, trata-se de um julgamento mais importante do que outros que trataram de temas sociais, como a união homoafetiva, Lei da Ficha Limpa ou aborto de fetos sem cérebro?
Ayres Britto –
 É um processo incomum. Basta lembrar: são 38 réus – alguns da área política – com ares de repetição de algo acontecido em Minas Gerais, com 600 testemunhas e que estará pronto para ser julgado em ano eleitoral. Em suma, é um processo incomum por essas características e, como há risco de prescrição pelo tempo transcorrido, exige uma tramitação peculiar, sessões de julgamento formatadas num modo peculiar. Sem que isso signifique absolutamente perda de isenção da nossa parte. O processo é incomum. E o que é incomum exige uma formatação incomum, mas sem o menor risco da nossa parte de incorrer em perda do critério absolutamente necessário da imparcialidade.
O ministro Ayres Britto durante julgamento no STF (Foto: Nelson Jr. / STF)O ministro Ayres Britto durante julgamento no STF
(Foto: Nelson Jr. / STF)
G1– A relevância política do caso justifica um tratamento especial? O Supremo está preparado para julgar o mensalão?
Britto –
 Faz parte dos encargos do Supremo Tribunal Federal. Ele existe para encarar processos simplificados, processos de média complexidade e processos de alta complexidade. O Supremo é uma instituição preparada para esse tipo de enfrentamento. Claro que não é rotineiro procedimentalmente, mas na cabeça do julgador é como outro qualquer.
G1 – Muda a postura do juiz ao julgar os réus do mensalão pela posição de poder que ocupam ou por suas relações com o poder?
Britto – 
Pessoalmente, entendo que não. Réu é réu, acusado é acusado, independentemente do cargo por ele ocupado. Do ponto de vista do que interessa para nós julgadores, que é perseverar no critério da imparcialidade, não. Nós já somos curtidos nesses embates processuais em que os acusados ocupam cargos elevados.
G1 – Nesse caso, se fala muito de quanto o Supremo e o Judiciário têm sido chamados a decidir questões políticas e também se critica o fato de o STF ser permeável demais e “jogar para a plateia” ou fazer populismo judiciário. O mensalão será julgado para a plateia?
Britto – 
O juiz que joga para a plateia vale menos que a bola. Eu digo isso com toda a sinceridade. O que o Supremo pode - e como qualquer juiz pode - é auscultar os anseios e expectativas da sociedade, os reclamos da sociedade mais contemporâneos, mais arejados mentalmente, mais libertos de preconceito. Você soube isso. E vai ver se é possível dar uma resposta decisória tecnicamente fundamentada. Se você der uma resposta tecnicamente fundamentada a um anseio coletivo, isso é cientifico. Você concilia o direito com a vida.
O juiz que joga para a plateia vale menos que a bola"
Carlos Ayres Britto, ministro do STF
G1 – Outra crítica que o Supremo tem recebido é sobre o excesso de ativismo, que faria o tribunal tomar o lugar do Legislativo criando regras ao decidir sobre questões judiciais. O STF legisla ao julgar?
Britto – 
O Judiciário não está produzindo sentenças aditivas. Eu rechaço isso. Aditivo é o que você acrescenta, nós não podemos acrescentar algo à lei e à Constituição Federal. Não podemos. O que estamos fazendo é uma interpretação mais principiológica mesmo do texto constitucional. Se o legislador silenciar, o Judiciário é obrigado a silenciar. Na omissão do legislador, o Judiciário tem que dizer: “não há lei. A ação não pode ser julgada porque falta base legal". Eu rechaço veementemente essa acusação de que o Judiciário, a partir do Supremo, está inovando a ordem jurídica e produzindo norma. O que Supremo tem feito é interpretar a Constituição.
G1 – Em um mandato encurtado pela aposentadoria compulsória [Ayres Britto completa a idade limite de 70 anos em novembro e terá de se aposentar], o que sr. pensa ser possível fazer para tornar o Supremo mais eficiente do ponto de vista prático?
Britto – 
Eu não considero sete meses pouco tempo. Tenho dito que vamos tentar fazer do breve, o intenso. Outro dia uma revista publicou que eu faria em sete meses o que Juscelino [Kubitschek] fez: 50 anos em cinco anos. Eu não disse isso. Minha caneta não é vara de condão. Num passe de mágica, eu não vou fazer uma revolução no Judiciário. O que eu posso fazer é um estilo de administração que possa trazer alguns resultados bons. Tenho chamado isso de estilo dialogal, compartilhado de gerenciamento. Vou conversar muito com as pessoas e já estou fazendo isso.
G1 – Depois de uma gestão marcada pela maior crise da história do Judiciário, tendo como pivô o Conselho Nacional de Justiça, como o sr. pretende lidar com a relação de conflito entre juízes e CNJ?
Britto –
 Essa relação já passa por um processo de atenuação neste momento e que tenderá a desembocar na plena harmonia. Na compreensão mais arejada, até tecnicamente, do papel do CNJ enquanto conteúdo e do Judiciário enquanto continente. Na prática, a gente nota que, como o CNJ tem apenas sete anos, é natural que ele esteja à cata de sua própria identidade jurídica. Também tem havido um confronto meio surdo, não muito notório, interno entre os juízes auxiliares e os próprios conselheiros.
G1 – O sr. concorda que é preciso abrir o Judiciário para a fiscalização da sociedade?
Britto –
 Sou simpatizante do CNJ. Erram os que pensam que o Judiciário pode passar muito bem sem o CNJ, que, para mim, é uma ferramenta de trabalho imprescindível. Eu entendo que o Judiciário nasceu com um déficit de republicanismo, de controle. A constituição originária entendeu que bastava, para o controle interno do Judiciário, o trabalho das corregedorias dos tribunais. A prática veio demonstrar que as corregedorias dos tribunais são necessárias, mas não são suficientes.
Eu não sei se funciona na prática, mas é bom recomendar aos juízes mais cinema, mais teatro, mais poesia, recomendar aos juízes a leitura de textos literários. Nós temos medo da subjetividade, queremos um juiz só objetivo, um autômato, quase uma máquina."
Carlos Ayres Britto, ministro do STF
G1 – O Judiciário tem se colocado na vanguarda de temas polêmicos para a sociedade que, por esse motivo, enfrentam dificuldades em outros poderes, como a união homoafetiva e o aborto. O Judiciário tecnicista e fechado deve se adequar à nova realidade?
Britto – 
Pretendo colocar pilha nas escolas de formação de magistrados. Essa é outra das minhas prioridades. Entendo que o magistrado, sem prejuízo do seu refinamento de tecnicidade, da sua formação cartesiana lógica... eu pretendo colocar ênfase no lado direito do cérebro para mostrar que este é o lado da intuição, da imaginação criativa, da contemplação.
G1 – Mas, na sua opinião, há abertura para essa mudança?
Britto – 
Podem dizer que isso é quixotismo. Eu não sei se funciona na prática, mas é bom recomendar aos juízes mais cinema, mais teatro, mais poesia, recomendar aos juízes a leitura de textos literários. Nós temos medo da subjetividade, queremos um juiz só objetivo, um autômato, quase uma máquina. Os congressos vão discutir num futuro próximo a simplicidade do juiz como postura, que se comporta de modo simples sem autoritarismo, sem pose. Acho que isso vai ajudar muito o Judiciário. Vamos deixar de tanto rebuscamento, de tanto juridiquês, de tanto latinório. Vamos falar mais claramente para o público. Mas você diz: “Sete meses são pouco para isso?" Mas, como semente, como semeadura está bom. O tempo é bom. Se a semente vai vingar é outra coisa, mas você plantou.
 

Verdade ou engano (mais um)?, por Vitor Hugo Soares


POLÍTICA

O mais novo escândalo do Brasil começa a descambar rapidamente e a olhos vistos para as velhas zonas de sombras, confusão e cumplicidades de sempre, em situações do tipo, por estas bandas abaixo da Linha do Equador.

Mal comparando, temos no país uma espécie de repetição cabocla do filme italiano“Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, magistral alegoria dos anos 70 sobre investigações policiais, acobertamento e impunidade, quando o crime, corruptos e corruptores se misturam nos plenários e nos gabinetes dos mais altos escalões da política e do poder.
O espanto e a indignação, quase generalizada, dos primeiros dias depois da divulgação, no Jornal Nacional, dos grampos da Polícia Federal que flagram o contraventor Carlinhos Cachoeira em tenebrosas transações com amplo espectro de políticos, negociantes e donos do poder na República – do ex-líder do DEM no Senado e arauto-mor do moralismo da direita nacional, Demóstenes Torres, ao governador da esquerda petista Agnelo Queiroz, encrencado governador do Distrito Federal – muda paulatinamente de tom e cor.
Devagar e sempre, o que deveria se constituir uma questão de interesse público (ver apurado e esclarecido com isenção e devida brevidade os feitos e malfeitos denunciados, para punição exemplar e inflexível de autores e cúmplices em um dos maiores escândalos nacionais na escandalosa história do país), vai-se transformando em desalentador cabo-de-guerra ideológico.
Pior e mais deprimente ainda: este rumoroso caso Cachoeira parece cada vez mais encaminhar-se para uma batalha encarniçada, perniciosa e de resultados ainda imprevisíveis, mas seguramente alheios ao verdadeiro interesse público e ao que de fato espera e cobra a sociedade em casos como este.
De repente, como ficou patente no show deprimente de complacência e “jeitinho brasileiro”, quando da sessão para compor o novo Conselho de Ética do Congresso, na quinta-feira(12), que marcou o reaparecimento público do moralmente devastado Demóstenes Torres. Ele jurou inocência e reivindicou o justo direito de defesa, “no mérito”.
Tudo mais ou menos como de praxe, no filme italiano citado no começo destas linhas, ou nos repetidos escândalos reais por estas bandas. Imagem e semelhança perfeitas, por exemplo, aos acusados políticos e governamentais do antigo e rumoroso escândalo do Mensalão.
Este, prestes já a prescrever para efeito de punições judiciais dos culpados, ou absolvição dos inocentes, mas ainda sem data marcada para julgamento, embora o futuro presidente do STF, o jurista e poeta sergipano Carlos Ayres Brito garanta, na entrevista que deu à revista Veja, que o realizará, como questão de honra, nos exíguos sete meses que terá no comando do Supremo.
Verdade, como a sociedade deseja? Mais um sonho de poeta romântico, simplesmente, como alguns proclamam? Ou puro engano? (mais um!), como muitos temem, incluindo o jornalista que assina este artigo. Responda quem souber.
Enquanto isso, o mais constrangedor é verificar como o andamento do caso Cachoeira caminha celeremente para virar uma perversa e devastadora oportunidade de “acerto de contas” político, ideológico e intelectual entre grupos de interesses em litígio, alguns deles, os mais escusos e enviesados possíveis.
E a chamada “grande imprensa” e muitos de seus profissionais no meio. “Tudo de bom" e, com certeza, dentro da expectativa de corrupto e corruptores em fuga, a caminho de novo escândalo.
No meio da fumaça que se espalha, resta a esperança da imagem nítida e marcante desta semana, embora praticamente ignorada e descartada como informação relevante pela mídia nacional.
O senador gaúcho Pedro Simon, raro exemplar do antigo MDB de Ulysses Guimarães (figura lembrada também por Ayres Brito, na Veja), pregando e dando avisos essenciais, como um Dom Quixote bradando de lança em punho, para um meio cego e desinteressado plenário do Senado brasileiro.
“Disse e repito: não me lembro de uma ocasião em que o Senado Federal esteve tão desgastado, tão no chão, tão humilhado, tão espezinhado pela opinião pública como agora", alertou.
Simon lembrou a Ficha Limpa e a imprensa na época: “Ontem, ela dizia que não ia acontecer nada, que havia um complô, uma movimentação, que o Senado estava tão comprometido que não ia acontecer nada. Aconteceu”. E concluiu com a memoria do escândalo Waldomiro, há sete anos.
“Vim (à época) a esta tribuna e disse: vou sair daqui e vou falar com o governo para ele demitir ainda hoje esse Waldomiro e iniciar o processo contra Cachoeira. Lamentavelmente, Lula não fez isso. Não se movimentou com relação a Cachoeira, não demitiu Waldomiro e as coisas continuaram. Hoje, sete anos depois, o mesmo Cachoeira que iniciou esse escândalo todo, volta. E o então ministro da Justiça de Lula (jurista Márcio Tomas Bastos) é agora e advogado de defesa de Cachoeira”, lamentou o senador gaúcho.
Merece aplausos o senador Simon! O resto, a conferir.

Vitor Hugo Soaresjornalista. E-mailvitor_soares1@terra.com.br

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Delta recebeu R$ 884,4 milhões do Governo Federal (PT) somente no ano passado


13/04/201210:24

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Citada nos grampos da Operação Monte Carlo, a empreiteira número um do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) recebeu, no ano passado, R$ 884,4 milhões da União. O volume de recursos do governo federal para a Delta Construções cresceu 1.417%, de 2003 até 2011 em valores corrigidos pelo IPCA.
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, disse na quinta-feira que as denúncias envolvendo a Delta Construções, maior empreiteira do PAC, têm de ser investigadas.
— Isso vai ser investigado. De qualquer maneira, qualquer irregularidade terá de ser corrigida, como a gente sempre faz cada vez que elas são identificadas — disse a ministra, após cerimônia de assinatura de convênios do programa Minha Casa Minha Vida.
— Em um determinado momento, o PT avaliou que as denúncias (do caso Cachoeira) eram fortes o suficiente para mudar o foco do mensalão. Mas eu acho que a ânsia de tentar sepultar o mensalão pode colocar o governo em uma situação muito difícil. Se pegar o que recebeu no governo Fernando Henrique, era um valor irrisório. É uma empresa que cresceu alucinantemente nos últimos anos — diz Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas, lembrando que os dados públicos sobre os gastos do governo não incluem as estatais.
Com cerca de 300 contratos no setor de construções em 23 estados do país e no Distrito Federal, a Delta cresceu 533% apenas no governo Sérgio Cabral (PMDB), no Rio, segundo o Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios (Siafem). Em 2007, a empresa teve empenhos de R$ 67,2 milhões, enquanto, em 2010, ano em que Cabral foi reeleito, o montante chegou a R$ 554,8 milhões, sendo R$ 127,3 milhões (22%) sem licitação.
Em 2011, a Delta recebeu do governo Cabral R$ 358,5 milhões, sendo R$ 72,7 milhões (20%) sem passar por concorrência pública. Este ano, já são R$ 138,4 milhões empenhados. Os valores do Siafem não incluem, no entanto, as obras do Maracanã, onde a Delta faz parte do consórcio com outras empresas. O projeto foi orçado em R$ 859,9 milhões. Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou indícios de graves irregularidades no processo de licitação no estádio para a Copa do Mundo de 2014.
Em agosto do ano passado, a Controladoria Geral da União (CGU) recomendou à direção do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) que cobre da Delta, contratada para construir a nova sede da entidade, na antiga sede do "Jornal do Brasil", a "devolução dos valores pagos com sobrepreço e dos serviços executados em duplicidade". Divulgado pelo site "Consultor Jurídico", o relatório da CGU encontrou um sobrepreço estimado em R$ 23,5 milhões no custo da segunda etapa da construção do hospital.
A Delta conseguiu ainda uma fatia milionária com a prefeitura do Rio. Entre 2008 e 2011, foram R$ 420,2 milhões — R$ 186,7 milhões na gestão do prefeito Eduardo Paes (PMDB) — em contratos com obras de urbanização e na locação de veículos e equipamentos de limpeza urbana. O último firmado, em agosto do ano passado, refere-se à implantação do Parque de Madureira, estimada R$ 71 milhões.
A empreiteira, que surgiu em Recife, na década de 60, chegou ao Rio de Janeiro no governo Anthony Garotinho, em 1999. Desde então, mantém relações com políticos de vários partidos. Nas últimas eleições, a Delta Construções doou R$ 2,3 milhões aos comitês do PT e do PMDB — R$ 1.1150.000 para cada partido.
A atuação da Delta também alcança as estatais. De acordo com o próprio site da empresa, há trabalhos de construção de 600 quilômetros de linhas de transmissão e 15 subestações, em Goiás e Mato Grosso, em pareceria com Furnas Centrais Elétricas. Os investimentos, no entanto, não são informados.

 
fonte:g1