domingo, 27 de novembro de 2011
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O ranking dos governadores e sua relação com a urna
José Roberto de Toledo
Há uma relação direta entre a popularidade de um governante e a chance de ele ser reeleito, ou de ao menos influir na sua sucessão. A questão é onde passa a linha que separa vencedores e vencidos. O ranking de governadores do Ibope dá pistas.
Esta é a primeira classificação, com todas as 27 unidades da Federação, divulgada após a eleição.
Comparando as pesquisas com o resultado das urnas, surgem duas perguntas. Qual patamar de aprovação garante sucesso eleitoral? Ou, ao contrário, qual nível de desaprovação leva o governante inevitavelmente ao fracasso?
O ranking dos governadores tem base nas pesquisas de avaliação realizadas pelo Ibope entre setembro e outubro. Embora as datas não sejam idênticas, são próximas o suficiente para permitir a comparação.
A régua é o “saldo” da avaliação: taxas de “ótimo” e “bom” subtraídas das de “ruim” e “péssimo”. O “regular” não entra na conta. Maior o saldo, melhor a posição do governador no ranking. O desempate é pelo porcentual de “ótimo” + “bom”, isto é, de aprovação.
Governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) tem 60% de ótimo/bom e 10% de ruim/péssimo. Seu saldo é de 50 pontos, o mesmo do governador do Acre, Binho Marques (PT). Mas Cid ficou na frente, em 6º lugar, porque mais eleitores aprovam seu governo (60% a 57% do petista).
A correlação entre boa avaliação e desempenho eleitoral fica evidente no quadro. Dos 16 governadores que obtiveram saldo superior a 30 pontos, nada menos do que 14 foram reeleitos ou elegeram seus sucessores.
Dos dois restantes, o tucano João Cahula perdeu no segundo turno em Rondônia, e Orlando Pessuti (PMDB) desistiu de concorrer e praticamente não influiu na eleição paranaense. Ele era vice de Roberto Requião, que elegeu-se senador.Os três primeiros colocados no ranking de governadores foram também os que alcançaram as maiores vitórias proporcionais nas eleições estaduais -diretamente ou por um herdeiro político.
O mais bem avaliado, Paulo Hartung (PMDB), do Espírito Santo, é quem mais se aproxima, em popularidade, de Luiz Inácio Lula da Silva. Tem 76% de aprovação (25% de “ótimo” + 51% de “bom”) e saldo de 73 pontos.
O presidente tem 80% de aprovação (34% “ótimo” + 46% “bom”) e saldo de 76 pontos. Ambos não puderam disputar a segunda reeleição seguida e preferiram ficar em seus cargos até o final do mandato.
Lula elegeu Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, com 56% dos votos válidos. Hartung elegeu Renato Casagrande (PSB), no primeiro turno, com 82% dos válidos. Ao contrário de Dilma, Casagrande tem histórico eleitoral, e vitorioso.
Segundo colocado no ranking, Eduardo Campos (PSB) teve 72% de aprovação, 69 pontos de saldo e acabou reeleito com 83% dos votos válidos em Pernambuco.
Em terceiro ficou Omar Aziz (PMN). Ele era vice de Eduardo Braga (PSB), assumiu o governo quando este renunciou para disputar o Senado, e acabou sendo eleito com 68% dos votos válidos, mesmo porcentual de aprovação do seu governo.
Na parte de baixo da tabela, onde estão os governadores mais mal avaliados, ninguém se reelegeu ou conseguiu fazer seu sucessor. Dos cinco que tiveram saldo inferior a 10 pontos, três perderam a eleição e dois ficaram à margem do processo.
Restam, portanto, 6 governadores que alcançaram saldo entre 13 e 26 pontos. Quatro deles tentaram a reeleição, mas apenas um teve sucesso: José de Anchieta (PSDB), em Roraima. Os outros três acabaram em segundo lugar nas urnas.
Antes de tirar conclusões, convém lembrar que a política é dinâmica: o cenário muda, e sempre é determinante no desempenho dos protagonistas nas eleições.
Com a economia e o consumo crescendo, o grau de satisfação do eleitorado estava mais alto este ano do que em pleitos anteriores. É como se o patamar mínimo de aprovação tivesse sido elevado para todos os candidatos ao Executivo.
Assim, a linha de 2010 pode não valer para 2014. Ressalva feita, percebe-se que:
1) Se o governante tiver saldo negativo, melhor não disputar a reeleição. Se apoiar um candidato, corre o risco de atrapalhar mais do que ajudar.
2) Se o saldo for positivo, mas inferior a 20 pontos, ele tem mais chances de perder do que de ganhar a eleição.
3) Não existe garantia de vitória, mas um saldo igual ou superior a 45 pontos está bem perto disso. Se perder, terá o consolo de ser um pioneiro.
4) Saldo entre 25 e 45 pontos torna o governante favorito ou o principal eleitor de sua própria sucessão -embora uma zebra ocorra a cada seis pleitos.
5) A taxa de “ótimo” é melhor indicador do que a de “bom”, mas o saldo é ainda mais importante do que a simples soma de ambas.
6) Vice-governadores que herdam governos populares só mantêm o sucesso dos titulares quando são expostos a intensiva propaganda eletrônica ao lado de seus padrinhos.
7) Existe transfusão eleitoral de um governante para seu candidato à própria sucessão. Não existe transferência de votos entre cargos diferentes. Lula elegeu Dilma. Governadores seus aliados se reelegeram, ou a seus sucessores, por mérito próprio.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Xavantes, velhos de guerra
Em 1956, a gripe levaria doentes desse grupo indígena a se aproximarem dos missionários salesianos. Daí em diante, outros dramas e histórias. Agora, em 2010, a reportagem de Liana Melo, no Globo de domingo, mostra os xavantes ainda em luta por suas terras. Desta vez, fazendas de gado e de soja ocupam 90% da sua reserva Marãiwatsede, de 1.650 km².
Em novembro de 1978 estive na reserva de São Marcos, onde viviam 1.200 xavantes em cinco aldeias. Lá, encontrei um padre missionário que questionava: quais seriam as perspectivas dos jovens índios? Os velhos tinham vivido noites intranquilas; em sobressalto. Qualquer barulho imprevisível desencadeava a expectativa, a angústia da possibilidade de ataque dos brancos.
Disse-me ele que a criançada não sabia o que era o medo de ser perseguido, dizimado. Que os adolescentes não percebiam o que seus pais e avós enfrentaram. "Os meninos nasceram com tudo à mão: comida, remédio e segurança." Aquele missionário se preocupava com o método educativo, insistindo na necessidade de transmitir conhecimento histórico às novas gerações. Isso há 30 anos...
Naquele tempo não me dei conta da complexidade do tema. Porém, entendi que, para se manter, uma tribo indígena precisaria permanecer no seu habitat original. E, mesmo assim, com proteção máxima de um órgão institucional. Ou seja, garantindo-lhe uma redoma refratária ao contágio com outras sociedades e à dinâmica dos acontecimentos no restante do planeta.
Mais tarde compreendi que para se "emancipar", o índio tem que desejar a "emancipação" e se preparar para isso. Quer dizer, globalizar-se sem perder seus valores culturais. Pensei na Europa. Após guerras terríveis, povos de diversas etnias aprenderam a conviver com diferentes línguas, tradições, mitologias, religiosidades, culinárias... Adquiriram novos conhecimentos, conquistaram avanços científicos, aperfeiçoaram tecnologias. Sem abandonar as brigas de praxe.
Concordaram até em usar uma mesma moeda. E a crise econômica? Crises nem sempre resultam de má gestão financeira. Acontecem. Uma estiagem repentina, por exemplo, seria suficiente para arrebentar com a produção agrícola que garantiria a alimentação dos habitantes de uma pequena e isolada aldeia. E, simplesmente, provocaria uma crise pavorosa: fome, desnutrição, doença e morte.
Voltando aos índios brasileiros. Quando passei por São Marcos e por várias outras reservas xavantes, em 1978, impressionou-me a determinação de um líder indígena chamado Celestino. Ele partia da reserva Couto Magalhães, chefiando cinco famílias, com a seguinte meta: retomar as terras da extinta aldeia de Prabubure, onde seu pai fora morto e seus avós estavam enterrados.
Seguia em um caminhão recrutando outros voluntários para sua batalha. O clima era tenso. Por quê? Porque uma fazenda de 140 mil hectares tinha ocupado a área. E agora? Faz 12 anos que pecuaristas e sojicultores não índios desmatam e produzem ilegalmente em Marãiwatsede, terra xavante, homologada em 1998, no governo de Fernando Henrique. A guerra continua?
Ateneia Feijó é jornalista
Assinar:
Postagens (Atom)