sexta-feira, 8 de março de 2013

Prosperidade, filha da democracia



Por Sandro Vaia
Quem conhece os mistérios da alma humana? Quem é capaz de dizer por qual razão os entes políticos tratam as pessoas comuns como um bando de rematados idiotas?
A foto de Hugo Chávez todo coradinho ao lado de suas duas filhas lendo uma edição do Granma, obviamente plantada aí por um photoshop , nao difere em nada da foto do ditador Artur da Costa e Silva , de perfil, ao lado de sua mulher Yolanda, vendendo saúde depois de um derrame, ou da foto de Tancredo Neves como um ectoplasma, cercado por sua equipe médica alguns dias antes de morrer.
Querem nos fazer crer que os políticos são imortais? Uma hora ou outra eles acabam morrendo, como todo mundo, e quem tentou nos enganar sai de fininho como se nunca tivesse estado aí.
Pois aí está. Apesar de a multidisciplinar doutora Dilma ter-nos garantido, do alto de seus conhecimentos médicos, no dia 23 de fevereiro que “o quadro do presidente Chavez não é preocupante”, ele morreu porque imortal não era.
Não é decente nem digno festejar , como alguns fizeram nas redes sociais, a morte de um ser humano, por mais pecados políticos que se possam atribuir a ele. Também não é digno mentir às pessoas tentando esconder-lhes a verdade.

 

Não chega a ser indigno, mas é apenas patético,senão cômico, tentar atribuir o nascimento, a evolução e o desfecho da doença a fantasmagóricas intervenções externas de supostos inimigos, como se o vírus do câncer fosse uma arma química que um agente secreto pudesse carregar na mochila.
Chavez morreu, novas eleições serão realizadas na Venezuela dentro de 30 dias, e apesar de todas as incertezas o vice-presidente de um voto só, Nicolás Maduro, que conta com o apoio dos militares, deverá vencer sem muitos problemas.
Chavez estava no início de seu quarto mandato consecutivo e sua morte reavivou velhas discussões sem fim sobre se a Venezuela era uma democracia ou não e sobre se ele fez bem ao seu povo ou não.
Caudilhos são caudilhos exatamente porque são amados por seu povo, e são amados porque são carismáticos e distribuem benesses.
A democracia, nesses casos, principalmente na América Latina, passa a ser um enfeite de prateleira, e o desrespeito às formalidades democráticas se justifica, segundo seus defensores, por eventuais “avanços sociais” que venham a ser conseguidos.
O raciocínio “ad absurdum” que passa a vigorar é este: quer dizer que nao dá para conseguir “avanços sociais” sem sacrificar a democracia ? Estão aí as prósperas democracias do Ocidente para mostrar que essa é uma falácia.
A prosperidade, a equidade e as sociedades mais justas, são filhas da democracia e não do autoritarismo.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

quinta-feira, 7 de março de 2013

Os comunas fazem questão de oprimir como um pesadelo o cérebro dos vivos


Por Reinaldo Azevedo - Veja


Os comunistas e esquerdistas de maneira geral são tão materialistas, mas tão materialistas!, que não se despedem deste mundo nem mortos. Nicolás Maduro, o presidente ilegal e ilegítimo da Venezuela, anunciou que o corpo de Chávez será embalsamado — “como o de Lênin”, ele foi claríssimo. As honras fúnebres durarão sete dias.

Que coisa! Alguns esquerdistas xexelentos de Banânia (os há não xexelentos?) dizem aqui e ali que a direita já foi muito melhor! Referem-se sempre, claro! a pessoas mortas — não sei se vocês entendem a sutileza de pensamento… Pode ser. Mas e a esquerda, hein? Tá bom! Nunca foi muito melhor, mas talvez já tenha sido menos pior, hehe.
Chávez embalsamado? O farsante cucaracha vem numa sequência de outras múmias homicidas, todas comunas: Lênin, Stálin, Kim Il Sung, Ho Chi Min, Mao Tse-Tung… Os vampiros morais ficam lá, expostos, com a sua face de cera. Curioso, não é?, quando nos lembramos que o comunismo é oficialmente ateu…
Como não recuperar as palavras quase iniciais de Marx em “O 18 Brumário”? Reproduzo:
“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E, justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens (…)”
Notem: os líderes comunistas foram embalsamos no período ainda da Guerra Fria. Exceção feita à Coréia do Norte, onde Kim Il-Sung ainda é tomado como referência incontrastável e a quem se atribuem verdadeiros milagres, as outras múmias não são mais do que atração turística hoje em dia. Repetir, em pleno século 21, o embalsamamento de um líder para que sirva de objeto de culto dá conta da degradação intelectual e moral a que chegou a política na Venezuela.
Vejam estas três imagens.
 
Temos, acima, a múmia de Lênin (1870-1924) — que quase foi enterrada pela Rússia pós-comunista porque é caro demais mantê-la — e o mausoléu que a abriga. É relativamente modesto se comparado a outros (já chego lá). Na sequência, está o corpo embalsamado de Stálin (1879-1953). Ficou exposto ao lado do Lênin até fevereiro de 1956. Depois que Krushev denunciou seus crimes, durante o XX Congresso do Partido Comunista, a múmia foi retirada do Mausoléu e enterradao nos muros do Kremlin.
Vocês verão que, quanto mais mixuruca o líder comunista, mais suntuoso é o mausoléu. Abaixo, estão o corpo embalsamado do líder comunista vietnamita Ho Chi Minh (1890-1969) e o prédio que lhe serve de túmulo. Nesse caso, justiça se faça, a sua vontade foi contrariada. Manifestou expressamente o desejo de ser cremado. Mas os comunistas precisam de mortos para oprimir o cérebro dos vivos.
Embora o maoísmo propriamente tenha sido enterrado na China (mas não a tirania, que fique bem claro!), o corpo de Mao Tse-Tung (1893-1976) permanece exposto à visitação, igualmente abrigado num prédio gigantesco. Vejam abaixo.
Nada, no entanto, se compara ao que se fez com com Kim Il-Sung, o ditador da Coréia do Norte (1912-1994), pai de Kim Jong-Il, que morreu em 2011. Sung se foi aos 82 anos. Os norte-coreanos o deixaram com cara de 30. O mausoléu que abriga o corpo é o mais suntuoso de todos. Ou por outra: quanto mais mixuruca, mais prédio! Ao ex-ditador se atribuem virtudes do outro mundo. Ele seria capaz de mexer até com os elementos da natureza! O filhote assassino está alguns andares abaixo do corpo do pai no mesmo monumento. Seguem as duas múmias e o mausoléu.
A América Latina já viveu seu patético momento por causa de uma múmia — a de Evita Peron. Falo a respeito em outro post. Podem escrever aí: Chávez, ou seu corpo, pode inaugurar uma tradição na América Latina. Os populistas fazem questão de tiranizar o cérebro dos vivos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

PT acua Eduardo Campos


COMENTÁRIO de Ricardo noblat - blogdonoblat.com.br


Se comprado apenas pelo que diz para divulgação, até que Lula parece bonzinho quando quer.
Lula quis parecer bonzinho em Fortaleza, na semana passada, ao responder perguntas sobre a hipótese de o PSB lançar Eduardo Campos, atual governador de Pernambuco, para concorrer à sucessão de Dilma em 2014. "Não podemos impedir as pessoas de fazerem o que é do interesse dos partidos", disse Lula, o cordato.
Foi adiante: "Defendo a liberdade incondicional de cada partido de fazer o que bem entenda. Se não fosse assim, o PT não teria chegado à presidência da República. Portanto, eu jamais tomaria qualquer atitude para impedir que um companheiro fosse candidato a presidente".
Do alto de sua experiência, sugeriu, bondoso: "O ideal é que a gente consolide as forças que estão mudando este país".
Por fim, elogiou o próprio Eduardo: "Ele é uma personalidade que pode desejar qualquer coisa que ele quiser neste país. O meu papel é fazer todo o esforço para que a gente esteja junto. Temos que construir uma aliança muito forte".


Eduardo apoiou Lula em quase todas as eleições presidenciais disputadas por ele. Lula só apoiou Eduardo para que ele se reelegesse governador.
No ano passado, Lula e Eduardo haviam combinado que o deputado Maurício Rands, do PT, seria o candidato dos dois a prefeito do Recife. O PT controlava a prefeitura há 12 anos.
Um dia, Eduardo ficou sabendo que Lula tinha entrevista marcada em uma emissora de rádio para anunciar a candidatura a prefeito do senador Humberto Costa (PT). Foi nessa ocasião que a boa relação entre os dois começou a ir para o buraco.
"Presidente, estou lhe telefonando da sala onde meu avô foi preso", começou a dizer Eduardo de uma das salas do palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco. Dali, no dia 31 de março de 1964, Miguel Arraes, governador do Estado, foi retirado sob a mira de metralhadoras. Os oficiais do Exército que o prenderam exigiram que renunciasse ao mandato. Arraes respondeu que jamais o faria.
Ao terminar de narrar o episódio a Lula, e de discutir a candidatura de Humberto, Eduardo acrescentou: "Não renuncio ao meu cargo. E ele me obriga a fazer o que for melhor para Recife e Pernambuco".
Lula ainda tentou negar que tivesse alguma entrevista marcada para anunciar o nome do novo candidato do PT a prefeito do Recife. A conversa que começara formal terminou azeda. Eduardo atraiu todos os partidos que apoiavam o PT e elegeu um prefeito do PSB.
Desde então, ele e Lula nunca mais se viram ou se falaram.
À Dilma, recentemente, Eduardo disse que somente no próximo ano o PSB se posicionará sobre a eleição presidencial. Adiantou que o partido tende a disputar a eleição com candidato próprio, mas que não poderia garantir que o fará.
Dilma foi hábil. E renovou seu desejo de contar com o apoio do PSB - seja no primeiro ou num eventual segundo turno.
De lá para cá tudo desandou.
O PT apertou Lula para que ele apertasse Eduardo. Lula apertou os irmãos Gomes (Cid, governador do Ceará, e Ciro) para que eles ameaçassem rachar o PSB.
Sem candidato forte ao governo de Pernambuco, o PT acenou para Fernando Bezerra Coelho, ministro da Integração Nacional por indicação de Eduardo. Fernando lançou uma nota de quatro linhas negando o aceno.

Eduardo sabe que Fernando quer sucedê-lo. E que poderá aderir ao PT.
Em 1986, então secretário de Estado do governo Roberto Magalhães, do PDS, Fernando largou o cargo para apoiar Arraes, candidato a governador pelo PSB. Em 2002, mudou-se para o PMDB e apoiou Jarbas Vasconcelos, que quatro anos antes vencera Arraes. Finalmente, em 2006, voltou ao PSB para apoiar Eduardo, candidato ao governo.
A ofensiva do PT contra Eduardo põe em risco duas condições essenciais à consolidação da candidatura dele a presidente: a unidade do PSB e a unidade das principais correntes políticas de Pernambuco.
Caso Fernando acabe no PT para disputar o governo, sua candidatura subtrairá parte da força da ampla coligação partidária que sustenta a ambição presidencial de Eduardo. Lula sabe disso. E por saber...
Marina Silva será candidata a presidente? Ela não é da base de apoio a Dilma. Não lhe tira votos.
Eduardo é da base de apoio e tira votos de Dilma. De resto, desmancha o cenário considerado ideal por Lula para ganhar outra vez: PT, apoiado por um monte de partidos x PSDB quase só.
Eduardo deixaria a base do governo na companhia de outros partidos. Nenhum partido parece disposto a trocar Dilma por Aécio.
Eduardo mete muito medo no PT. A pecha de direitista, privatista e anti-Lula não gruda nele. É preciso, portanto, sufocá-lo logo de saída. Todas as armas serão usadas para isso.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Penas do mensalão serão executadas até 1º de julho, diz Joaquim Barbosa



  • Em entrevista à imprensa estrangeira, presidente do STF considera que são 'baixíssimas' as penas impostas aos réus


Joaquim Barbosa, presidente do STF
Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo

Joaquim Barbosa, presidente do STF Ailton de Freitas / Agência O Globo
O GLOBO - BRASÍLIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse que as penas dos 25 condenados no processo do mensalão serão executadas até 1º de julho. Para o processo ser encerrado, ainda é necessária a publicação do acórdão, uma espécie de resumo das decisões tomadas ao longo do julgamento. Depois, os réus poderão recorrer das decisões e, só depois de julgados os recursos, poderá haver prisão – isto é, se os pedidos de revisão forem todos negados em plenário. A declaração foi dada nesta quinta-feira em entrevista concedida a agências internacionais de notícias.
- As ordens de prisão devem ser expedidas antes desta data - afirmou à imprensa estrangeira
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


FH diz que Lula atua ‘como uma espécie de presidente adjunto’

  • Fernando Henrique participou de um seminário organizado pela Casa da Artes, na Gávea, Zona Sul do Rio


FH participa de seminário: PT ‘tem o mensalão na testa’
Foto: Marcelo Piu / Agência O Globo
O GLOBO - RIO E BRASÍLIA- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) alfinetou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta sexta-feira, em evento no Rio. Disse que o petista está inaugurando um novo cargo, o de “presidente adjunto”, já que é um dos principais articuladores das decisões do governo Dilma Rousseff, e tachou a relação do PT com seu governo de caso de “psicanálise”. FH participou de seminário organizado pela Casa das Garças, na Gávea, Zona Sul do Rio, em homenagem aos 70 anos do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Dilma na Guiné Equatorial e eu quando fui preso e deportado...


Dilma na Guiné Equatorial e eu quando fui preso e deportado...





Lendo o noticiário à propósito da viagem da presidenta Dilma a mais uma dessas cúpulas onde se copula politicamente muitas ideias, mas não se fecunda nada, relembrei das minhas aventuras como membro de uma precursora e bem eclética equipe de marketing político pela África no início dos anos 90, liderada por Geraldo Walter de Souza Filho, o saudoso Geraldão, com as presenças ilustres de Ricardo Noblat, Fernando Barros, Ana Maria e os não menos ilustres Maurício Rossi, Hamilton Oliveira, Nestor Amazonas e muitos outros. Fizemos um trabalho muito rico em experiências com o MPLA em Angola que - não por culpa nem por puro mérito nosso - ainda se perpetua no poder desde dos anos 70, sempre com a ajudinha de brasileiros.

Mas o caso que vou relembrar se refere a uma viagem para a Guiné, onde se dizia que o ditador de então e ainda hoje mandatário supremo do país, pretendia fazer uma abertura política. Havia um partido oposicionista exilado em quase sua totalidade na Europa, há longos 14 anos, depois do sanguinário golpe perpetrado por este que até hoje esta no poder. Ele simplesmente havia matado o tio que era o presidente e mais quatro mil opositores ao passar de uma semana no poder.

Ricardo e Geraldão foram convencidos que lá teríamos uma outra campanha política, desta feita levando à disputa um partido oposicionista ao poder. "Com o povo, pelo povo e para o povo", já seria copiado por nós nessa época.

Pois, então, formou-se uma equipe composta por quatro bravos guerreiros do marketing que na companhia do líder oposicionista, na época exilado em Madrid, chegariam na capital Malabo, para documentar o início das negociações entre oposição e governo para a tão sonhada abertura política.

O plano era chegar em Douala, na República dos Camarões, pegar os vistos na embaixada da Guiné, seguir para São Tomé e Príncipe, onde Miguel Trovoada, presidente, receberia e apoiaria como intermediário o nosso cliente e de lá partiríamos para o ilhéu capital Malabo, 300 quilômetros do continente. Como todos podem observar, uma capital geograficamente confortável para qualquer ditador - imagina Brasília nessa situação.

Lá fomos nós, saindo de São Paulo no dia 08 de Dezembro de 1993.

Eu, Ruy Rodrigues, Popy Ribeiro, e um outro sujeito que não me recordo o nome dele agora. Acho que esse branco com relação ao companheiro que esqueci o nome não é por acaso e vocês vão perceber o porquê mais na frente.

Desembarcamos em Zurique, na Suíça, de lá seguimos para Douala cruzando o deserto do Saara numa classe executiva tomando champanha e comendo canapés da Swissair. Uma maravilha! Lá em baixo e bem pequenininho, víamos as torres de exploração de petróleo no maior deserto do mundo e cá as branquelas nos servindo no maior conforto possível.

Chegamos em Douala. Uma cidade onde se via a destruição das florestas africanas sendo transportadas pelas centenas de carretas que circulavam pelas ruas da cidade dividida por etnias e gangues fomentadas, desde a sua ocupação, por ingleses e franceses. Por sinal, um aspecto bastante peculiar eram os bairros divididos até mesmo pela língua. Haviam uns em que se falava francês e outros em que se falava inglês. Até a propaganda de outdoor era - a mesma - em uma língua e em outra. Na época, lá também estava acontecendo uma campanha política e o cartaz de um dos candidatos ostentava um bem produzida foto dele ao lado de um imponente e ameaçador leão, apoiado num criativo e não menos ostensivo slogan: “Homem coragem, homem presidente!”.



Conseguimos os vistos, como já havia sido planejado. Em Douala, encontraríamos com o nosso cliente que a partir dali seguiria conosco até o glorioso dia do retorno à pátria amada.

Hospedados no hotel Meridien, passávamos o tempo na piscina bebendo lá pressione - grandes canecas de chopp - enquanto Ruy não se cansava de medir a temperatura local dentro e fora da piscina com um moderno relógio que havia adquirido na Suíça e que contava com esse indispensável(?) serviço meteorológico.

Vistos em Mãos, partimos para São Tomé. Oh vidão! Hotel Tivoli, praias maravilhosas e uma interminável espera pela recepção - encontro oficial - do presidente Miguel Trovoada. Comendo, bebendo e dormindo. Foi lá que apreciei pela primeira vez os saborosos bifes de tartaruga e carne de macaco oferecidos em pequenos restaurantes do povo local. No hotel nem pensar nessas iguarias.

Amanhecia e anoitecia e nem sinal de “Trovoadas”. O tempo firme e céu límpido fazia soprar sobre as nossas mentes uma certa incerteza de que começava a ficar difícil chover em nossa horta. Quero dizer o seguinte: como haviam sucessivos adiamentos do encontro entre nosso cliente e o nosso principal interlocutor político, tudo levava a crer que algo não estava dando certo.

Aí chega a hora de contar um fato curioso. Depois de uma semana na bela ilha de São Tomé, o candidato nos chama e diz que teríamos de ir ao Gabão encontrar com outra figura de pouca conversa, mas de muita ação. O ditador Omar Bongô nos aguardava para uma reunião. Nos aguardava, assim como, cara pálida? Ele só iria se fosse acompanhado por nossa equipe. Daria um certo status e também garantiria sua integridade física. Como assim sua integridade física? Estávamos correndo algum perigo de vida?

Foi aí que nosso bravo companheiro que, até agora, não lembro a alcunha, amarelou e pediu pra ir embora, abandonando de vez a nossa briosa expedição.

E lá fomos nós para o Gabão. Chegamos e fomos recebidos em almoço pelo presidente no palácio de governo numa pompa só. Depois do lauto banquete o nosso cliente foi ao tete-à-tete com famoso ditador que usava botas com salto falso tentando esconder sua baixa estatura física e, também, moral.

Ao pedirmos as contas no hotel fui surpreendido por uma chamada à suíte do nosso cliente - ele só se hospedava em suíte, dava status. Foi ai que as coisas começaram a ficar mais turvas. O nosso querido cliente me chamou ao canto da sala de estar da suíte e quase cochichando - talvez para a esposa não escutar e se matar - me pediu 100 dólares. Quase caí para trás...

Quando de volta ao encontro dos companheiros, relatei o ocorrido e ouvi um sonoro: fudeeeeeeeu!

Voltamos para São Tomé com o moral baixo. E bote baixo nisso!
Ligamos para o Brasil e os caras - Ricardo e Geraldo - deram um bando de gargalhadas e tentaram nos tranquilizar dizendo que os problemas financeiros dele não eram nossos e que isso poderia ser algo como ter esquecido de levar os dólares dele para a furtiva viagem ao Gabão.

O Natal se aproximava e o dia do desembarque em Malabo se revestia de expectativas.  A essa altura queríamos entregar o mandú e voltar para o nosso doce lar no Brasil.
Até porque, como se diz lá no Recôncavo da minha Bahia, tudo indicava que "aquele angu tinha caroço".

Comendo e bebendo dia e noite num hotel cinco estrelas num paradisíaco arquipélago, eu engordava que nem uma porca. Era pão, vinho, peixe e muito bacalhau. Foi ai que dei de cara com uma dúvida que me perturba até hoje: bacalhau é peixe?

Vésperas do Natal e nosso cliente nos chama e sentencia: depois de amanhã rumamos para Malabo. Mesmo sem as bênçãos de Miguel Trovoada, que até aquele momento não tinha dado as caras com a gente, estava tudo certo e tranquilo para aterrissarmos na famigerada capital da Guiné.

Só que teríamos de alugar um avião para o translado, pois sem o apoio logístico prometido por Trovoada, se não fosse de avião fretado, só de saveiro navegando por uns sete longos dias.

Conseguimos um bimotor pertencente a um mercenário libanês que, por três mil dólares, ele levava a trazia a trupe. Tudo acertado, partimos no início da tarde do dia 22 de dezembro.

Notei que dentro do avião o nosso cliente suava um pouco fora do normal, até porque dentro da aeronave estava até fazendo frio. Mas... vamos em frente.



Depois de quase 90 minutos de voo, o piloto num português sofrível relata que estava sendo observado por dois caças. Logo em seguida começa um diálogo pouco amisto e muito objetivo que, mesmo entre ruídos da comunicação via rádio, conseguíamos ouvir um sonoro "go back!". Em seguida e sem pestanejar o nosso bravo mercenário fez o que no surf se chama de manobra radical e em segundos a proa deu lugar a popa e já navegávamos de volta ao arquipélago do escroto do Trovoada.

Um silêncio ensurdecedor tomou conta de todos dentro da minúscula aeronave e depois que alguém peidou, respiramos profundamente e quase que em uníssono perguntamos: o que foi que aconteceu?

O libanês que mais parecia um Nacib corneado, gaguejando respondeu que eles - os amigos dos caças - mandaram voltar dali mesmo senão derrubariam nossa aeronave libertária.

Mais gaguejando que nosso colega baiano, Gaguinho Fotógrafo, nosso cliente tentava esboçar uma explicação para o ocorrido e esbravejava um "isso não vai ficar assim".

Pousamos na nossa segura ilha decididos a abandonar tudo e tentar retornar depois do réveillon de 1994.
Nossos chefes Geraldão e Noblat nos "convenceram" a passar o Natal por lá, nos garantindo que contatos da Europa teriam assegurado que tudo não passava de ruído na comunicação - eles gostavam muito dessa expressão - e que logo após o "nascimento do menino Jesus" nos seríamos recebidos com festa em Malabo, onde a promissora oposição estava com tudo organizado para a uma grande recepção.

Neste Natal de 1993, acredito que ganhei uns cinco quilos de gordura adiposa com tantas guloseimas numa ceia maravilhosa feita apenas para nós, os únicos hóspedes do hotel a ficarem para passar o Natal por lá. Naquela época, não se fazia muito turismo por aquelas bandas como hoje.

Dia 28 chegou com a certeza de que a nossa expedição seria coroada de glórias. E fomos nós mais uma vez com o mercenário libanês voando rumo a Malabo no final da tarde. O horário havia sido determinado pelo cliente depois de falar com correligionários e acertar os pormenores da chegada, com carreata e comício na praça da capital numa noite que anunciaria o alvorecer de uma nova era para o povo da Guiné.

A viagem foi tranquila, os caças não nos afugentaram e pousamos como previsto no início da noite. Ao nos aproximarmos do hangar de desembarque, achei meio estranho que as milhares de pessoas previstas na calorosa e garantida recepção não podiam ser vistas no mirante do aeroporto.



E fui ficando um pouco apreensivo quando percebi um pelotão bem armado do exército com cara de poucos amigos a nos aguardar na pista.
 Um silêncio mais ensurdecedor ainda que o da primeira viagem assolou o interior do nosso bimotor.

Paramos e antes mesmo que o avião desligasse de vez os motores, alguém abriu a porta aeronave e entre olhares fui escolhido para ser o primeiro a pisar em solo ilhéu.



Fui também o primeiro a apresentar o passaporte e ser preso imediatamente. tentei argumentar que tinha um visto devidamente oficializado pela embaixada em Douala e um calango de patente pediu que eu localizasse o tal visto no passaporte e o apresentasse. Logo que o mostrei, ele sacou um lápis e escreveu sem titubear: cancelado com exclamação no final. Assim foi comigo e com todos os outros da equipe. Nosso cliente, Dom Carmello, foi se afastando de nós sob escolta e depois de algumas horas detidos e sem saber o que poderia acontecer, recebemos um ordem imediata de embarque e assim  fomos expulsos da, hoje promissora república petrolífera africana, onde nossa chefe de Estado se encontra para discutir investimento sob o manto de mais uma ditadura sanguinária de mais de 30 anos. Mas esse negócio de ditadura nunca incomodou o atual partido que governa o Brasil há 10 anos. Até porque ditadura no país dos outros é refresco.

Ah, antes que se fechasse as portas da aeronave eu tive a pachorra de gritar: Adiós, Dom Carmello, adiós!!!

P.S.: Inicialmente detido, nosso bravo opositor de esquerda logo virou um destacado executivo da empresa petrolífera do regime ditador e, pelo que se vê hoje nas noticias sobre essa cúpula, deu certo e prosperou. E a tal democracia que ele representava como baluarte da esperança do seu povo sofrido ficou para depois. Bem depois!

Texto de José Américo Moreira da Silva
Fotos de Popy Ribeiro (Exceto a aérea que é do google)